Cristiano Varisco e a Trilogia das Flores/Música para Plantas

Fotos: Mariana Kircher

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Cristiano Varisco lançou em 2015 seu terceiro disco – Lúcia McCartney. Disco final de uma trilogia intitulada Trilogia das Flores/Músicas para Plantas. Recentemente, o artista fez um balanço de seus últimos anos gravando os álbuns Aline (2013), Trilhas Sonoras para Filmes Imaginários (2014) e Lúcia McCartney (2015). A “Trilogia das Flores” ou “Música para Plantas” de Cristiano Varisco conta com 50 músicas diversificadas em três álbuns que se comunicam entre si, com músicas que dialogam e dão continuidade em excertos e partes diferentes que podem se encontrar aleatoriamente na forma de ouvir os três discos. Assim, a Trilogia ganha vida própria em um carrossel sonoro cheio de efeitos e nuances. Através das artes plásticas, do cinema e da literatura, o compositor expõe sua música instrumental de forma conceitual dividida em três momentos. São três álbuns consecutivos feitos em menos de dois anos que se completam e outrora ganham por sua força individual, pela figura das flores, do sagrado feminino e do misticismo sempre presentes como fio condutor. A originalidade da Trilogia das Flores (Música para Plantas) tem produção musical de Thomas Dreher e contou com o apoio de mais de 40 profissionais envolvidos para que o trabalho final se apresentasse de forma equilibrada e intrigante, convidando o ouvinte para uma surpreendente viagem sonora em três passos.

 

Conversar com o músico é fazer uma limpeza da alma, é tranquilizar a inquietude. Em um jogo de perguntas e respostas, saíram palavras sinceras de um processo de autoconhecimento e enriquecimento pessoal. Algo essencial para qualquer artista em plena atividade.

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Acompanhe:

2015 foi um ano em que tu lançaste o último álbum da Trilogia das Flores. Qual o balanço do último ano em relação aos três discos de tua carreia, em especial ao Lúcia McCartney?

A boa aceitação e acolhida à “Trilogia das Flores/Música para Plantas” aconteceu de forma satisfatória tratando-se de um trabalho quase terapêutico, underground, conceitual, alternativo, de profundo resgate pessoal cuja visão a longo prazo torna-se intrigante, vide as vendas de CDs e quantidade de shows em constante andamento.

Por se tratar de uma composição instrumental, tu estás vendo alguma dificuldade em lançar estes trabalhos? Como as pessoas estão avaliando este formato?

Já trabalho há tanto tempo com música instrumental que já nem mais faço essa distinção, embora a “música pela música” seja diferenciada, acredito nas freqüências sonoras certeiras, sem carregar uma ideia com palavras, apenas a linguagem musical. Hoje, não vejo muito preconceito, pois bandas como Pata de Elefante e Os Argonautas, entre outras, popularizaram mais o gênero, tirando do meio rançoso do jazz rock erudito, para um público mais rocker. Tal diferença sempre existiu, mas hoje, com a confluência dos meios de comunicação, o rock instrumental parece ter se diluído em um furacão de vertentes e influências.

Tua experiência musical, como instrumentista de outras bandas é muito ampla. E como é ser o protagonista em cima do palco? Como é ser o artista principal?

Difere com maior responsabilidade, mas tenho ótimos músicos e amigos ao meu lado que lembram a minha constante “destruição do Ego” para reconstruir uma nova mentalidade não apenas na banda, mas em decorrência de um verdadeiro trabalho de cura espiritual debruçado em três discos que se espraia por toda a minha vida, cheio de renovação, amor e aprendizagens que seguem até hoje, dentro e fora do palco.

Tu gravaste os três discos desta trilogia em menos de dois anos. Sabemos que as composições já estavam prontas e só aguardando a lapidação em estúdio. Como foi mexer neste material depois de tantos anos?

Algumas composições eram apenas rascunhos, ideias gravadas em fitas com 3 ou 4 segundos de duração, riffs, estudos melódicos e harmônicos, coisas de um garoto sonhador. Daí juntei as partes, criei refrões, contrastes, desloquei introduções, mix, loop, colagens, etc. Fiz outros arranjos com atenção especial aos tons e andamentos trocando as peças do lugar. Outras, como The Ultrajeto, Saída de Emergência, Tarde Quente de Inverno, Clímax, Do Cosmos ao México, já tinham sua estrutura pronta pois vinham dos meados dos 90, quando tínhamos a banda Saída de Emergência, com Carlos Magno na bateria. Outras foram criadas propriamente para a trilogia, como Yndios (influenciada pelo uso do xamanismo e terapias alternativas nos sítios de Viamão), Aline (faixa-título), a série de Recycles do último disco, a segunda parte (acústica) de Bruxinha, Ayahuasca… Foi um exercício e tanto de estudos musicais, mas era trabalho o que eu estava procurando mesmo e acho que consegui, pois quase me sobrecarreguei (além de músico, sou professor em uma escola primária em turno integral). Contudo, foi um belo período de provações e crescimento como ser humano, aprendendo novamente nessa escola da vida.

Quem participou dos discos e como foi gravar com os mais de 40 profissionais convidados?  

Se não fossem meus amigos, teria naufragado em estúdio, não conseguiria gravar o primeiro disco em meio tamanha renovação que ocupava minha cabeça do passado e da cidade.

Gatidão a quem participou, direta ou indiretamente na trilogia: Jeff – baixo; Davi – bateria e percussão; Astronauta Pinguim – teclados, Benito Crivellaro – piano; DJ Duke Jay – scratches; Gabriel Corrêa – violino; Kim Kircher – baixo; William Abreu – berimbau, percussão; Asdrubal Llantada – voz; Valquiria Raduntz – voz; Gisele SuperGisele – voz; Caroline Corso – voz; Carlos Magno Pereira – percussão; Rodrigo Ardissoni – craviola; Thomas Dreher – produtor musical; Sergio Vasconcellos – edição; Lisiane Nunes – narração; Jorge Abrahão – narração; Juliana Marasini – narração; Juliana Lima – design gráfico; Sergio Prates – arte; Maximiliano Oliveira – foto; Thaís Terra – foto; Rafael Avancini- foto; Adriana Bleggi – figuração; Tatiana Paganella – figuração; Andressa Cantergiani – figuração; André Coelho/Vetor Design – arte final; Alissa Gottfried – arte; Paulo Henrique Santos – foto; Mariana Kircher – foto; Eduardo Normann – arte; Solon Fishbone – apoio técnico (guitarras e amplificadores); Adão Martins – apoio técnico (amplificadores); Leandro Chaves – apoio técnico (violões nylon); José Carlos Accurso – apoio técnico (violões 12); Jones Santana – apoio técnico (guitarras); Cacau Maciel – divulgação; Thiago Gonçalves – divulgação; Cláudia Kunst – assessoria e Cristiano Bastos – divulgação.

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Thomas Dreher foi quem produziu todos estes trabalhos. Como aconteceu esta parceria?

Thomas Dreher foi o convidado número um. Antes mesmo de chamar a banda! Estava disposto a gravar todos os instrumentos sozinho, tamanha a urgência de uma ocupação que não me levasse aos extremos da loucura e acho que Thomas entendeu isso e viu que era um momento especial em minha vida, e deu sangue nas faixas também. Havia gravado e mixado com ele o disco “Primavera do Gato Amarelo” de Julio Reny, com capa de Aline Reis, a artista homenageada no primeiro disco da trilogia. Fiquei muito contente quando ele aceitou assinar a produção musical nos três álbuns, pois seu trabalho é um referencial para todo o mercado fonográfico e artistas gaúchos.

A mescla entre a música, as artes plásticas, a literatura e o cinema formaram um conjuntos de artes integradas destes três álbuns. Fale um pouco sobre isto.

Talvez fizesse um álbum triplo hoje em dia… Acho que classificá-los desta forma ajuda a organizar melhor (é o que dá sustento) a trilogia. Aquela coisa conceitual do rock progressivo, das aventuras de um garoto perdido em uma rádio rock, com diversas influências nas madrugadas, atuando como DJ. Sempre achei legal a comunicação entre as artes, como dança, música, teatro, pintura, literatura, happenings afins, a história da própria ópera… Toquei numa banda dos anos 80 em Porto Alegre, chamada Nada Público, que misturava histórias em quadrinhos com música. Assim, é uma forma de amenizar o fio condutor de toda trilogia e tentar mascarar os álbuns sob diferentes prismas, o amor.

E a mulher? Trilogia das Flores, como tu mesmo mencionas nos shows e em entrevistas se trata da figura da mulher, do sagrado feminino e do misticismo. Houve muita inspiração passional nisto, não?

Aline foi minha primeira mulher e a separação serviu para dar asas ao universo feminino presente em todos, a Mãe Terra, Pacha Mama, Santa Maria para os indígenas, em todas as coisas, a sutileza e o verdadeiro valor em todas as almas que nos cercam. Hoje somos grandes amigos e podemos conversar sobre arte, percebendo as transmutações próprias da vida, buscando viver o que de bonito restou. São coisas que se perdem na correria diária da cidade grande. Coisas elementares, como apreciar uma flor, por exemplo, fazer seu abrigo, seu fogo, caçar, viver.

Em 2015, teu segundo álbum Trilhas Sonoras para Filmes Imaginários foi indicado ao Prêmio Açorianos de Melhor Compositor na categoria Música Instrumental. Esperava por esta indicação? Como foi participar da seleção?

Essa coisa da competição nas artes é como cores, subjetivas, e ainda mais pelo estado mental em que me encontrava para gravar Trilhas Sonoras…, após o lançamento naufragado de Aline, perdido, achava-me trancado em uma garrafa em alto mar. As noites doloridas de Trilhas Sonoras me faziam arrastar pelo estúdio Dreher minhas realidades mais duras através de correntes, cordas e berimbaus. Mas daí saiu o disco mais expressivo e estranho da trilogia, acho eu, enquanto Lúcia McCartney me parece mais solar. Mas fiquei orgulhoso pelo reconhecimento de um trabalho tão alternativo na mídia de massa, ainda mais como compositor de um gênero musical que sempre botei fé, e a indicação, por si só, já é um avanço na diversidade sonora voltada para uma mostra mais democrática do que se faz por aqui, em Porto Alegre.

O segundo disco foi indicado ao Açorianos enquanto o terceiro, Lúcia McCartney estava sendo lançado. Acredita que este último possa receber alguma indicação este ano para o prêmio?

Sim, a julgar por essa maior abertura democrática no ecletismo das artes e numa confluência, espécie de fusão de gêneros e estilos já tão seccionados na Internet que acabam tocando os ouvidos do receptor com uma outra mensagem. Eu acredito que há espaço para todas as tribos e outros tantos artistas alternativos que tenho grande apreço como, por exemplo, o compositor Sergio Tavares ou outros artistas independentes que não tiveram oportunidade ainda de gravar e mostrar suas músicas nos espaços alternativos que ainda restam em Porto Alegre.

Conte sobre como será o futuro desta trilogia. E também sobre novos projetos.

Penso em trabalhar na divulgação e na rotatividade dos CDs físicos como se fossem verdadeiros produtos medicinais de uma quiçá musicoterapia, aliada à arte, remetendo às coisas boas da vida que persistem sob os sentimentos mais cruéis, através de mera fruição estética sem compromisso, apenas convidando o ouvinte a viajar por um universo sonoro mais amplo em três escalas. Se minha música assim tocar a alma humana, sinto-me com o dever cumprido, satisfeito e feliz por ter compartilhado esse momento de alguma maneira, que minha música tenha elevado sua alma, arejado sua mente, dando-lhe oportunidade de autoconhecimento, expansão, relax e meditação através dos sons. Caso contrário, serão apenas músicas para plantas.

Fechando…

Aho!!!!

Através desse trabalho conheci pessoas, profissionais, anjos tão especiais em minha vida, em um período difícil e árdua transformação, quando precisei abrir horizontes sempre com a ajuda desses amigos incríveis. Gratidão a todos, Deus, Luz, Pai Celestial, Santíssima Trindade, à sincronicidade obtida desde Aline, em finalizar a Trilogia com a sensação do dever cumprido e estar ao lado de seres humanos maravilhosos, experientes, com um olhar especial sobre a vida. Eles estarão pra sempre guardados no meu coração. Gratidão por acreditar, pela sensibilidade e apreço. Vamos seguindo com o vento…

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